O outro lado das remessas de dinheiro com Bitcoin na Venezuela

Em 2018, Deimer González juntou seu diploma universitário, algumas roupas e uma carteira com 1,5 Bitcoin – suas economias de toda a vida – e deixou a Venezuela. O que aconteceu ao longo de 2019 oferece um panorama para os usuários de Bitcoin venezuelanos em todo o mundo.

Engenheiro mecânico de Caracas, capital do país, que trabalhava na empresa estatal de petróleo e gás natural da Venezuela (PDVSA), González disse à Coindesk que essas mesmas economias lhe permitiram ajudar financeiramente seus pais quando ele começou a construir uma nova vida em Buenos Aires, Argentina.

“Eu sempre fui capaz de mandar dinheiro de volta graças às minhas economias, poupando meus salários em pesos”, disse ele.

A rotina de sair do país e mandar dinheiro para a família por meio de Bitcoin é enfrentada por vários refugiados que viram na criptomoeda a solução para a grave crise enfrentada na Venezuela.

A salvação dos remanescentes

Com um valor estimado de US$3,7 bilhões em remessas enviadas em 2019, as remessas de dinheiro vindas do exterior são uma fonte de renda cada vez maior para as pessoas que permanecem na Venezuela. Neste mercado, o Bitcoin e outras criptomoedas assumiram um papel maior na facilitação dessas transações.

Além disso, os migrantes estão usando criptomoedas durante o próprio processo de realocação, visto que geralmente é difícil para imigrantes sem emprego ter acesso a serviços financeiros em seus novos países. É o caso de Wolfang Barrios, um trader de Caracas que contou à Coindesk sua experiência de chegar no Chile sem nenhum centavo em moeda local.

“Eu não tinha um emprego estável, dinheiro suficiente ou uma conta bancária. Eu poderia enviar as remessas apenas usando criptomoedas”, lembra Barrios.

Além disso, apoiar uma família na Venezuela não é fácil, mesmo para quem ganha em dólares. Em maio, o economista venezuelano Luis Oliveros afirmou que o custo de vida no país, para uma família de cinco pessoas, era de US$900 por mês, sendo que uma cesta básica de alimentos custa um terço desse valor.

Atualmente, o salário mínimo na Venezuela atualmente é equivalente a US$15 por mês, embora os economistas suspeitem que esse valor já esteja desatualizado dada a forte hiperinflação da moeda local, o bolívar. No caso de González, nem seu salário mensal de US$5 na época da PDVSA, nem suas remessas de Bitcoin oferecem o suficiente para sustentar sua família.

“Hoje eu envio US$50 em Bitcoin e ainda não é nada”, disse ele, acrescentando que seus pais precisam trabalhar para se sustentar e não possuem planos de sair da Venezuela.

O mercado de remessas

Talvez por causa de todos esses desafios, os negócios de remessa de dinheiro via criptomoedas podem começar a florescer na Venezuela. Um empresário do setor, que pediu para ser identificado apenas pelo seu primeiro nome Jesús, trabalha para a plataforma de remessas Local Remesas, que opera entre o Peru e a Venezuela.

“Recebemos entre US$200.000 e US$300.000 por mês”, disse ele, explicando como a plataforma atualmente negocia a troca de pesos por Bitcoin, para depois trocar por bolívares na Venezuela.

Acontece que o processamento de pagamentos fiat-to-crypto (termo usado para negociações que envolvem moeda fiduciária e criptoativos) é um negócio lucrativo na Venezuela. De acordo com a Polícia de Imigração do Peru, o país é a segunda rota de entrada para imigrantes venezuelanos, com mais de 865.000 chegadas até o momento. Até o governo de Nicolás Maduro lançou recentemente sua própria plataforma de remessas, que usa o Petro, criptomoeda estatal criada pelo próprio governo do presidente.

Quanto a Jesús, ele disse que o segredo para fazer remessas e trocas com as melhores taxas é usar contatos diretos:

“A LocalBitcoins é cerca de 3% mais cara do que usar meus próprios contatos.”

Porém…

No entanto, mesmo com o crescimento do uso do Bitcoin para remessas internacionais na Venezuela, muitos usuários da criptomoeda vêem os pagamentos com Bitcoin apenas como último recurso, por uma série de razões.

Na Venezuela, cuja taxa de inflação diária pode chegar a 3%, a constante desvalorização do bolívar tornou a troca por Bitcoin muito útil para aqueles que vivem no país. Mas em outros lugares da América Latina, alguns usuários de Bitcoin preferem usar as suas moedas locais, visto que a situação econômica costuma ser mais sustentável.

Mariluna De La Concha, advogada venezuelana especializada em criptomoedas e que mora no México, disse que enviou remessas em criptomoedas para sua família de 2016 até o início de 2019. Agora, ela só envia pesos.

“Não é conveniente trocar criptomoedas”, disse ela. “Na Venezuela, elas têm um bom valor devido à inflação, mas aqui elas são muito caras.”

Sua escolha por usar essas plataformas de troca caras, mas compatíveis, também era uma questão de segurança. Casos de fraude foram relatados anonimamente em chats privados venezuelanos, onde as contas bancárias americanas de usuários venezuelanos são denunciadas e bloqueadas após uma transação.

Uma fonte anônima disse à Coindesk que existe a suspeita de que as transações das plataformas de câmbio estejam sendo rastreadas pela polícia do governo para extorquir os usuários de Bitcoin. Para González, o engenheiro mecânico que fugiu em 2018, a situação o levou a deixar de utilizar Bitcoin e usar mais moeda fiduciária em suas remessas para a família. González disse:

“Sou mais um holder de Bitcoin agora.”

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